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Revisitamos o álbum “Celestial”, de Elaine de Jesus. Confira nossa crítica

Elaine de Jesus é uma cantora pentecostal consagrada no mercado gospel. Seus álbuns de maior sucesso, “Muito Especial”, “Até

Revisitamos o álbum “Celestial”, de Elaine de Jesus. Confira nossa crítica

Elaine de Jesus é uma cantora pentecostal consagrada no mercado gospel. Seus álbuns de maior sucesso, “Muito Especial”, “Até o Fim” e “Pérola”, conquistaram cantores, corais e círculos de oração em todo o país. No entanto, ao lançar o álbum “Celestial” em 2010, seu 12º álbum de carreira e o primeiro sob o selo da Sony Music, mesmo com seu histórico de inovação, o trabalho parece mergulhar em um mar de clichês e falta de originalidade.

O álbum foi analisado considerando o contexto daquela época, evitando comparações com o presente. A produção musical, a cargo de Ronny Barbosa, oferece um repertório modesto, com arranjos simples e letras que seguem uma linguagem pentecostal.

O álbum começa com um estrondo, mas não exatamente o tipo que se espera. “Pode ser você”, composta por Fernando Filho, é como uma montanha-russa desgovernada em um parque de diversões, deixando os ouvintes mais confusos do que extasiados com o carro-chefe.

A letra, apesar de tentar transmitir uma mensagem de esperança, parece perdida em meio a metáforas e uma melodia que oscila entre o desespero e a histeria. “Se esqueceram, que o quadro vira / Se esqueceram, que a roda gigante gira” proclama a música, mas a única coisa que parece girar é a mente dos ouvintes, tentando entender como uma faixa tão desconjuntada foi parar no repertório.

O refrão repetitivo não ajuda em nada a melhorar a situação. Enquanto a produção musical de Ronny Barbosa tenta dar algum brilho à confusão, não há muito que possa ser feito para salvar essa viagem turbulenta. “Pode ser você” parece mais uma tentativa desesperada de encontrar um sucesso instantâneo do que algo duradouro.

O disco parece oscilar entre momentos de inspiração genuína e outros de clichês desgastados. Por sorte,  “Deus visitou Sua Casa” destaca-se como uma das poucas exceções. Apesar do refrão repetitivo, a música consegue transmitir uma boa mensagem de restauração familiar.

Além disso, os elementos musicais, como a introdução com baterias e pianos, adicionam uma camada bacana ao ouvinte. Mesmo com algumas imperfeições, é um alívio encontrar uma faixa que, pelo menos, tenta oferecer algo além do comum em um álbum que beira ao previsível.

A faixa-título “Celestial”, a joia do projeto, não apenas carrega o nome do álbum, mas também serve como seu coração pulsante, capturando a essência da adoração pentecostal com maior intensidade. Composta por Rogério Jr., a música mergulha nas profundezas da vida e do sacrifício de Jesus, desde sua infância até sua crucificação e prometida volta.

Os pianos e violinos que iniciam a canção evocam uma atmosfera solene, enquanto o refrão explode com uma energia que ecoa ao nível celestial – perdão ao trocadilho – , acariciando os ouvidos do ouvinte. A voz de Elaine traz vida às palavras poéticas e cheia de significado na mensagem, que nos lembra da dor e do sacrifício de Jesus na cruz, mas também nos aponta para o futuro, quando ele retornará em glória para reinar para sempre. Desde os momentos de pura adoração no refrão até sua declamação, Elaine nos mostra por que é uma das referências do meio pentecostal.

Embora a faixa nos lembre de outras canções no repertório da cantora, ela também o transcende, oferecendo uma experiência musical inovadora e ao mesmo tempo familiar. É uma canção que merece ser ouvida repetidas vezes.

A típica fórmula de Elaine entra em ação em sua quarta faixa, “Shekinah”. Composta por Elizeu Gomes, é mais uma tentativa de retratar o derramamento da unção divina na igreja. A introdução com violinos pode até parecer promissora, mas logo se dissolve em uma produção simplista e monótona, que mais parece uma cópia carbono de tudo o que já ouvimos dela anteriormente.

A repetição incessante de “Shekinah” ao longo da faixa é como um lembrete constante de que estamos presos em um loop sem fim, onde a originalidade é suprimida em prol do conforto de fórmulas testadas e aprovadas. Não há ousadia, não há inovação, apenas uma paisagem sonora que se desvanece na falta do que escolher para gravar.

É uma pena que uma voz talentosa como a de Elaine tenha sido  desperdiçada em uma produção tão previsível e esquecível como esta.

“Digno de todo o meu louvor, digno da minha adoração, Jesus é digno, sim, Ele é digno, Ele é digno”. Assim começa  “Digno”, nos jogando direto ao refrão, aliás, música se sustenta o tempo todo por essa estrofe. Composta por Agailton Silva, sua narrativa simples, que poderia ter sido escrita em cinco minutos durante uma sessão na escola dominical,  transporta os ouvintes para a visão de João na ilha de Patmos, enquanto celebra a grandeza e a santidade de Jesus.

A canção mergulha nas raízes da adoração pentecostal, oferecendo uma experiência musical cansativa.

No contexto do álbum, a faixa “Vida no Altar” emerge como uma promessa de transcendência e espiritualidade, mas acaba sendo engolfada pela mesmice das baladas pentecostais que a precedem. Ainda que o início da canção possa evocar uma sensação de elevação, logo somos arrastados para a monotonia previsível que permeia todo o álbum.

A letra, embora articule a ideia de uma vida no altar dedicada à santidade e à comunhão com Deus, seus versos, embora bem estruturados, não conseguem transcender o óbvio, repetindo os mesmos temas e conceitos de algumas faixas.

Apesar do mérito na composição de Lenno Maia, que soube escolher as palavras certas para transmitir a mensagem desejada, “Vida no Altar” se perde em meio à falta de inovação e criatividade que assola o álbum como um todo.

Emerson Pinheiro trouxe um pouco de brilho para o álbum. “Não Nos Prostraremos” é uma faixa que se destaca, e com razão! Moisés Cleyton conseguiu transmitir uma mensagem sobre resiliência e fé inabalável, inspirada na passagem dos três jovens na fornalha de fogo.

A introdução encorpada, cheia de bateria e teclados, realmente prepara o terreno para uma performance vocal poderosa. Parece que Elaine de Jesus finalmente encontrou uma música que permite que seu talento brilhe. E que letra envolvente! “Aqueçam a fornalha sete vezes mais, o fogo em nossas almas arde muito mais.” É uma declaração de coragem e determinação que certamente ressoa com o público.

É uma faixa que merece ser ouvida e apreciada, e mostra que ainda há esperança para um pouco de originalidade e criatividade neste cenário musical de clichês.

A faixa “Luz”, originalmente considerada para ser o título do álbum de Elaine de Jesus, oferece uma experiência musical envolvente, impulsionada por seu ritmo cativante e elementos instrumentais bem trabalhados, como a percussão e as guitarras.

A letra, escrita por Marcelo Dias e Fabiana, explora o tema da luz divina que transforma as trevas, refletindo a narrativa bíblica de quando Deus disse “Haja luz” e viu que era bom. Embora a música transmita uma mensagem positiva sobre a luz que vem de Deus, ela se encontra em terreno familiar, lembrando outros hinos conhecidos.

Mesmo com seus destaques vocais e instrumentais, “Luz” não consegue escapar totalmente dos clichês do repertório selecionado. Embora seja uma faixa gostosa de se ouvir ao limpar a casa, sua falta de originalidade impede que ela se destaque verdadeiramente como uma obra memorável.

“Deus da Providência”, uma daquelas típicas baladas pentecostais que parecem ter sido recicladas inúmeras vezes! Composta por Denner de Souza e Adriano Barreto, é mais uma canção que segue a mesma fórmula básica, com letra previsível e melodia que não traz nada de novo ao álbum.

Enquanto descreve as lutas da vida e as tempestades que enfrentamos, parece que só mudaram as palavras, mantendo a mesma estrutura e estilo que já ouvimos centenas de vezes. Apesar disso, entre tantas músicas semelhantes, essa até se destaca um pouco. Talvez pelo toque inicial do teclado e pelo refrão um pouco mais marcante: “Pode vir o inferno, podem vir as ondas tentar me afundar, eu vou lutar, se um exército se levantar em fúria pra me enfrentar, eu vou guerrear”. Mas, no geral, é mais do mesmo no mundo das baladas pentecostais.

A participação especial de Lauriete em “Som de Adoração” traz um novo fôlego à canção, mostrando uma abordagem mais suave e controlada, em contraste com os habituais gritos característicos do pentecostal.

A introdução com um vocal mais suave e diferenciado adiciona uma camada de interesse à música, colocando-a como um ponto de destaque. Na segunda estrofe, Lauriete demonstra sua habilidade interpretativa firme, mostrando que a variedade de técnicas vocais pode enriquecer uma canção pentecostal para além dos padrões convencionais.

No entanto, embora a música possua momentos poderosos, como a analogia ao sucesso anterior de Elaine, “Terremoto Santo”, e a mensagem sobre a unção divina presente no lugar de adoração, ainda segue a mesma fórmula presente do disco.

Celestial é como uma festa que promete muito, mas entrega pouco. Entre os fogos de artifício da produção de Ronny Barbosa e as letras grandiosas de Marcelo Dias e Fabiana, falta um tempero. A faixa “É Tremendo”, em particular, tenta capturar a emoção da presença de Deus, mas acaba parecendo uma cópia barata de outras músicas do gênero, sem trazer nada de novo à mesa.

A música nos deixa desejando por algo mais autêntico e menos previsível. Enquanto intérprete canta sobre vitória e mudança de história, o álbum parece preso em um ciclo de mesmice. “É Tremendo” pode não ser um plágio direto, mas sua presença no álbum pode ser vista mais como uma contribuição a encheção de linguiça.

Embora “O Casamento” possa surpreender os ouvintes que esperavam uma música romântica, a faixa se revela uma poderosa metáfora sobre a volta de Jesus e seu enlace com a Noiva do Cordeiro nos portais da glória.

Embora siga a tradição pentecostal, a composição de Moisés Cleyton oferece uma perspectiva inovadora e envolvente sobre o tema. A extensão da música não se torna tediosa, mas sim cativante, especialmente com versos como “Novo corpo, novo nome, novas vestes, novo hino cantaremos, nunca mais a aflição”.

Elaine de Jesus eleva ainda mais a experiência com sua declamação baseada em Apocalipse 22, proporcionando arrepios aos ouvintes. No entanto, é difícil ignorar o fato de que, apesar da beleza da letra, a música se enquadra no padrão previsível das baladas pentecostais, contribuindo para a sensação de uniformidade dentro do projeto.

“Ligado no Céu” tenta resgatar o estilo agitado do forró pentecostal, trazendo uma nostálgica sanfona que lembra os grandes momentos de algumas produções pentecostais. No entanto, apesar da tentativa de trazer de volta essa essência, a faixa parece mais uma homenagem mal concebida do que uma verdadeira inovação.

Expressões modernas como “clique” e “plugado” são introduzidas na canção, tentando atualizá-la para os tempos tecnológicos, mas acabam parecendo forçadas e destoantes do contexto. A descrição das histórias bíblicas, embora traga referências inspiradoras, não consegue se aprofundar além de clichês superficiais, resultando em uma narrativa previsível.

Mesmo com a presença do tradicional acordeom e dos metais típicos do forró, falta à música a autenticidade e a energia que tornaram esse estilo tão cativante. Em vez de capturar a verdadeira essência do forró, “Ligado no Céu” parece presa em uma tentativa superficial de recriar algo que já foi feito de forma muito mais autêntica e impactante.

Ao fechar o álbum, Elaine de Jesus parece ter perdido a oportunidade de surpreender os ouvintes com uma conclusão poderosa. Em vez disso, “O Dia” é mais do mesmo – uma balada pentecostal que parece ter sido incluída apenas para preencher o repertório.

A falta de originalidade é evidente, deixando a sensação de que os produtores simplesmente estavam tentando atingir um número específico de faixas. A letra, embora baseada em passagens bíblicas, não consegue se destacar, oferecendo apenas uma repetição do tema de vitória já explorado nas faixas anteriores. Enquanto Marcelo Dias e Fabiana podem ter feito um trabalho decente na composição, a execução final parece ter sido deixada de lado, resultando em uma conclusão decepcionante para quem sempre soube ter um ótimo repertório.

 

Após analisar faixa por faixa, fica evidente que o álbum “Celestial”  é uma montanha-russa de altos e baixos. Enquanto algumas músicas como “Celestial” e “Não Nos Prostraremos” destacam-se pela sua originalidade e poder emocional, outras como “Pode ser você” e “O Dia” caem na armadilha da previsibilidade e falta de inovação.

 No geral, o álbum oferece momentos de inspiração, mas é prejudicado por sua inconsistência e tendência a seguir fórmulas familiares. Para os fãs de Elaine de Jesus e do gênero pentecostal, há certamente gemas a serem encontradas, mas a experiência musical como um todo deixa a desejar em termos de coesão e impacto duradouro.

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Gilcinei

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