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EP “A Voz” é o melhor trabalho de Cassiane desde a década passada. Confira nossa crítica

Não consigo imaginar a angústia que deve ser, para um artista, se ver diante do dilema de ter que

EP “A Voz” é o melhor trabalho de Cassiane desde a década passada. Confira nossa crítica

Não consigo imaginar a angústia que deve ser, para um artista, se ver diante do dilema de ter que se superar depois de ter feito grandiosas obras que são lembradas até os dias de hoje. Entre 1997 e 2010, Cassiane conseguiu essa proeza, mas após anos e mais anos saciando a fome do pentecostal, infelizmente, veio as obras que não tiveram tanto impacto quanto estes lançados nestes período de glória.

Depois de lançar o bem elaborado “Nível do Céu”, estava nítido qual pegada Cassiane iria trazer para suas próximas produções. Fugindo de seu território familiar pentecostal, onde se concentra a maior parte dos admiradores de seu ministério, solista vem apostando em novas vertentes desde “Eternamente”, com tracks voltadas para o pop pentecostal. Vez ou outra a um acerto musical, porém, em um disco com mais de 10 canções, uma ou duas canções realmente cai na boca do povo. O que não é o caso de seu último trabalho.

A cantora, que comemora bodas de esmeralda este ano por seus 40 anos de carreira, lançou no ano passado o EP “A Voz”, uma coletânea que reúne 5 faixas inéditas e, para a surpresa de zero pessoas, trouxe na bagagem arranjos com pegada pop congregacional. Na obra, intérprete chama para si a responsabilidade de transmitir a força e superação que as letras pedem. E é assim que ela sustenta as faixas do disco.

Em “A Voz”, a performance da intérprete nos deixa com vontade de levitar entre as nuvens – e em determinadas partes, falar em mixterio – de tão gostoso que é ouvir. E não podemos deixar de fora que a produtor Jairinho, esposo da cantora, teve uma pincelada de “culpa” nisso, ao trazer arranjos na medida certa para o repertório satisfatório.

Um exemplo é a track inicial “Olha o Que Deus Faz”, que carrega o peso que toda primeira faixa de um álbum carrega: instigar o ouvinte a continuar a ouvir a obra. E canção faz isso com maestria. Composição de Gislaine e Mylena, música é marcada pelo amadurecimento vocal da intérprete e uma letra autoajuda, onde evidenciar o que Deus faz se prova como o centro motriz da canção.

Cada faixa presente no projeto, exprime de forma íntima e pessoal, as mudanças que Deus traz na vida daquele que o segue. “Não Sou Mais Órfão” é o ponto chave dessa constatação, explicando com todas as letras que o passado ficou pra trás. Composta por Dimael Kharrara, música se tornou um material poderoso na divulgação do ep, mostrando que Cassiane não se prende apenas em canções do “retete” e de refrões cansativos, mas que sabe demonstrar intimidade em forma de canto, com um coro delicado e profundo, além de arranjos de peso proposital que corroboram pra um brilhantismo álbum.

Deus Vem” foi lançado como single do ep, e é aqui que o pop congregacional é posto como maior destaque entre as 5 tracks. Composta novamente por Dimael Kharrara, a canção é a mais mercadológica do projeto, afinal, falar sobre vitória no deserto, metaforicamente falando, nunca caiu do desgosto do público, seja ele um amante do pentecostal ou congregacional, e isto é um fato. Contudo, é sua potente tecedura que nos conquista, servindo como uma reflexão guiada pelos arranjos e backing fluente.

Título da obra, “A Voz” é como uma vírgula no gostosinho projeto, desmantelando o pop ritmado das tracks anteriores. Se afastando daquilo que estávamos acostumados a ouvir na carreira da intérprete, faixa respalda no forte congregacional, numa sonoridade singular, trazendo melódicos arranjos acompanhado de um sútil coro característico do gênero. Quem assina a composição é Jotta A.

É interessante notar como uma faixa puxa a outra, expandindo-se em narrativas de autoajuda, bem comum em obras gospel. O disco sabe como fazer isso dá certo sem se tornar algo clichê. Em sua última faixa, “Feridas de Um Soldado”, o destaque fica pelo “casamento” instrumental criado entre a narração de Cassiane e seus arranjos. A composição é de André Freire.

Embora seja um belo ponto fora da curva, analisando as origens pentecostal de Cassiane, o ep torna-se o melhor lançamento da cantora desde eras passadas, talvez devido às suas poucas faixas e produção consistente, diferente do lançamento anterior, “Nível do Céu”, que após alguns plays cansava de ser ouvido e já pedia uma troca (gosto do álbum, porém, não de todas as faixas).

A Voz” não deixa a desejar, muito pelo contrário, nos torna rapidamente “órfãos” pela falta de mais canções deliciosas como as aqui apresentadas. Cassiane há tempos tentava se reencontrar com um álbum onde todas as faixas marcavam, e parece que finalmente se encontrou.

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Gilcinei

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