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Em “Terceiro Céu”, Damares abraça a adoração intimista em busca de novos públicos na era digital. Confira nossa crítica

Damares é uma das figuras mais proeminentes da música gospel pentecostal, e sua jornada artística tem sido marcada por

Em “Terceiro Céu”, Damares abraça a adoração intimista em busca de novos públicos na era digital. Confira nossa crítica

Damares é uma das figuras mais proeminentes da música gospel pentecostal, e sua jornada artística tem sido marcada por um profundo compromisso em projetos autênticos e de qualidade, cativando os ouvintes com seu timbre singular e suas canções inspiradoras, consolidando-se como uma das principais vozes do segmento. Ao longo dos anos, a artista lançou uma série de álbuns aclamados, cada um refletindo uma fase distinta de sua jornada de 25 anos, incluindo “Apocalipse” (2008), “Diamante” (2011) e “O Maior Troféu” (2013), ambos reconhecidos pela crítica e pelo público como marcos na música gospel contemporânea. 

Ao todo, são 10 obras, sendo “Superação” (2020) o último trabalho da cantora e também seu primeiro projeto voltado apenas para as mídias digitais. Antes disso, a paranaense lançou o disco “Obra Prima” (2016). Com exceção de “Apocalipse”, todos foram disponibilizados pela Sony Music, sendo Damares uma das primeiras a entrar no selo gospel da gravadora, no Brasil. 

O álbum “Terceiro Céu” representa o mais recente capítulo na jornada da cantora. Trazendo novamente a parceria de Weslei Santos e Melk Carvalhedo na produção musical, produtores de seu último trabalho. Este disco reflete sua evolução artística, abrindo mais uma vez as portas para um universo de adoração e louvor, com a cantora guiando os ouvintes por uma cuidadosa seleção de faixas, carregada por uma jornada profunda e envolvente. Desde a faixa de abertura até a última nota, o álbum é uma experiência imersiva, onde cada canção é uma expressão sincera de devoção e gratidão. Cada letra é carregada de significado e profundidade, deixando evidente o quão cuidadoso foi a criação do trabalho na tentativa de impactar positivamente o público. 

Embora “Terceiro Céu” mantenha a qualidade e o profissionalismo pelos quais Damares é conhecida, o álbum não está isento de crítica e algumas faixas podem parecer um tanto familiares ou previsíveis, tendo pouca originalidade que caracteriza seus melhores trabalhos. No entanto, mesmo essas canções contribuem para a atmosfera geral do projeto, adicionando camadas à narrativa que a cantora tão habilmente constrói, garantindo uma experiência auditiva satisfatória.

A faixa de abertura do álbum, que dá título à obra, oferece uma experiência intensa e emotiva. Composta por Daniel Nadje, “Terceiro Céu” transporta os ouvintes para uma dimensão celestial, embasada em referências bíblicas, especialmente nos escritos do apóstolo Paulo sobre sua experiência no terceiro céu, destacando-se pela sua profundidade e reverência. A grandiosidade de Deus é exaltada, enquanto a expectativa da segunda vinda de Cristo é pintada com uma aura de adoração e antecipação. 

Os arranjos cuidadosamente trabalhados adicionam uma camada extra à música, criando uma atmosfera que envolve desde os primeiros acordes. A combinação de instrumentos e harmonias é habilmente executada, complementando perfeitamente a narrativa da canção e aumentando seu impacto proposital. Apesar de alguns aspectos convencionais na abordagem lírica, os arranjos musicais são a estrela desta faixa, além da captação ao vivo e presença de público, junto ao backing fluído, elevando-a para além das expectativas e tornando-a uma das melhores faixas de abertura de um álbum da paranaense.

A faixa “Sou Eu” apresenta uma mensagem de conforto e esperança, centrada na onipotência de Deus. No entanto, ao analisar a música mais detalhadamente, é possível perceber algumas limitações em sua execução. A composição de Jonathan Brito Jonn é bastante simples, com uma melodia fácil de ser seguida. Os arranjos musicais são notavelmente leves e suaves, e o backing vocal é discreto, apesar da captação local de público, resultando na falta de elementos que poderiam adicionar maior dimensão e profundidade à música. 

Além disso, a repetição excessiva das palavras “Sou Eu” ao longo da faixa pode tornar a experiência auditiva monótona, sem oferecer muita variação ou progressão, o que resulta em uma faixa que não consegue atingir o impacto emocional que poderia ser alcançado com uma produção mais elaborada. Embora a repetição seja comum para este tipo de canção, para enfatizar pontos-chave da mensagem, neste caso, poderia ter sido explorada de forma mais criativa. Apesar de sua mensagem reconfortante, “Sou Eu” carece da intensidade musical e da variedade necessárias para se destacar como uma faixa memorável dentro do álbum.

Em “A Tenda”, outra composição de Daniel Nadje, música é uma peça que mergulha profundamente na temática da glória e da presença de Deus, em um testemunho da majestade e da transcendência do Criador. Uma das características mais marcantes da faixa é a maneira como os arranjos são habilmente introduzidos, criando uma atmosfera envolvente desde o início. Diferente da faixa anterior, os elementos musicais aqui apresentados são cuidadosamente entrelaçados, resultando em uma estrutura sonora coesa e cativante. 

A letra da canção, por sua vez, é uma ode à grandiosidade de Deus, fazendo referências bíblicas e narrativas para ilustrar a incomparável glória divina, descrevendo uma experiência visceral da manifestação de Deus. A estrutura da composição é bem elaborada, com uma progressão que culmina em uma explosão de versos que evocam imagens vívidas, destacando a mensagem central da música de uma maneira memorável e impactante. 

Em resumo, “A Tenda” é uma faixa notável que combina arranjos bem executados com uma composição lírica profundamente espiritual.

Lançando no cenário como uma promessa de reinvenção das mensagens que falam sobre a volta de Jesus para a era digital, Damares trouxe em seu disco a canção “O Noivo Virá”, composta por Priscila de Paula. A mensagem central da música, embora tradicional em sua temática escatológica, é apresentada de forma atraente e adaptada aos padrões contemporâneos. A noção de esperança e preparação para a vinda de Cristo é expressa com uma linguagem que busca conectar-se com o público atual, abordando temas como a ansiedade, a espera e a prontidão espiritual. 

No entanto, apesar da riqueza conceitual da letra, é notável que os arranjos musicais, embora bem introduzidos, não conseguem se destacar de maneira significativa. A musicalidade parece servir mais como um suporte para a mensagem do que como uma expressão artística autônoma. Falta a profundidade e a originalidade nos arranjos que poderiam elevar a experiência auditiva proporcionada pela faixa.

É louvável o esforço em trazer uma mensagem tão presente nos projetos anteriores da cantora para o contexto contemporâneo, e a letra da música certamente atinge seu objetivo ao transmitir a urgência e a expectativa da segunda vinda. No entanto, a ausência de uma abordagem mais impactante na parte musical pode limitar o alcance e o impacto da faixa, deixando-a restrita a um público mais específico.

Com uma letra que evoca imagens de transformação e renovação, “Questão de Tempo” oferece consolo para aqueles que enfrentam adversidades, lembrando-lhes que há um propósito por trás de todo sofrimento. Desde o início, a canção traz uma mensagem metafórica e sugestiva. A faixa traz consigo um público para acompanhar a performance da cantora em sua captação naturalista. 

A letra reconhece a realidade da dor e do sofrimento, mas também aponta para uma verdade mais profunda: que o choro e a angústia podem ser parte de um processo de crescimento e amadurecimento espiritual. A composição de Darlan Fraga e Sandro Sales destaca em seu refrão a importância de manter a fé e a confiança em Deus, mesmo quando não entendemos os caminhos que Ele nos leva, e que o propósito por trás de nossas provações se revelará eventualmente, enfatizando que a dor que experimentamos hoje é apenas temporária em comparação com a alegria que está por vir.

A execução musical parece se contentar com arranjos moderados, especificamente na falta de um backing mais pesado ao longo da canção que poderia ter adicionado uma camada mais emocional à faixa, reforçando a jornada de superação descrita na letra. Ainda assim, a produção da canção cumpre com seu papel proposto, mesmo que deixe com um gostinho de “tá faltando um tempero”.

Em sua sexta faixa, Damares apresenta uma faixa robusta e uma produção que tenta transmitir grandiosidade, mas infelizmente parece se perder em meio a arranjos excessivos. Melk Carvalhedo resolveu juntar o que estava faltando em algumas canções anteriores para nos entregar a pomposa “O Leão”. 

A música, em sua essência, parece mais voltada propositalmente para um estilo da dupla Canção e Louvor, que emprestam sua voz na colaboração na faixa, do que na própria Damares, que é a artista principal do álbum. Os arranjos, embora pretensiosos, acabam por tornar a faixa um tanto quanto desconexa, dificultando a imersão do ouvinte na mensagem proposta pela letra. Em determinados momentos, a voz da dupla fica sem destaque, o que compromete ainda mais a coesão da canção. 

A letra, embora seja repleta de referências bíblicas e reflexões teológicas, parece não encontrar um equilíbrio adequado com a melodia e a estrutura musical. Há uma tentativa clara de transmitir uma mensagem de adoração e exaltação, porém, a execução não atinge o potencial esperado, deixando a sensação de que a grandiosidade da temática se perde em meio a uma produção excessivamente complexa. Em suma, a composição de Cláudio Louvor mostra-se como uma faixa ambiciosa e mercadológica, porém, mal executada.

Em ”Deus de Detalhes”, Damares mergulha profundamente na devoção, destacando a importância de reconhecer a presença de Deus nos detalhes mais sutis da existência. Sob a direção de Weslei Santos, a produção da música atinge um equilíbrio notável, com arranjos que amplificam a mensagem da canção sem sobrecarregar a voz da cantora. O uso de elementos do backing mais pronunciados acrescenta camadas emocionais à faixa, elevando sua intensidade e impacto.

É interessante notar que esta é a primeira faixa do álbum produzida por Santos, e sua contribuição parece ser uma escolha acertada, evidente nos acordes e na harmonia entre a voz de Damares, que por sua vez, é o ponto focal da música, demonstrando sua habilidade de transmitir sinceridade e fervor na composição de George de Paula. Sua interpretação emotiva casa perfeitamente com a mensagem de adoração e gratidão expressa na letra. A faixa se destaca dentro do contexto do álbum como um momento de reflexão e celebração da fé, oferecendo um contraste equilibrado com outras canções do projeto, tornando-a uma adição significativa ao repertório da cantora.

Damares apresenta uma narrativa de superação e renovação em “Pagina Virada”. A composição de Anderson Lima e Tony da Mata é um ponto de destaque na crítica. Os compositores conseguiram capturar a essência da jornada de superação através de uma narrativa poética e emotiva. A letra habilmente descreve os altos e baixos da vida, desde a busca por aventura até a experiência de amargura e decepção, culminando na transformação e na esperança renovada.

O ponto mais brilhante da música é, sem dúvida, a voz de Damares. Sua interpretação dá vida à narrativa, transmitindo com sinceridade e paixão a jornada de transformação pessoal descrita na letra. Sua habilidade de transmitir emoção através da voz eleva ainda mais a mensagem da música, tornando-a verdadeiramente uma das destaques do álbum, cativando e inspirando os ouvintes.

Em suas faixas finais, Damares parece ter optado por canções de autoajuda, como “O Que é Teu, é Teu”, segunda composição de George de Paula no disco. A canção é um hino de fé e confiança em Deus, destacando a mensagem de que as suas promessas são garantidas e que o tempo dEle é perfeito. 

A captação ao vivo da canção adiciona uma dimensão emocional, evidenciada pela participação entusiástica do público, permitindo uma conexão mais íntima, e pelo apoio do backing vocal, que acompanha a cantora de forma harmoniosa amplificando a mensagem de autoajuda, incentivando os ouvintes a descansarem no Senhor e acreditarem que suas promessas se cumprirão no momento certo. 

A repetição de versos-chave cria um efeito de mantra, reforçando a ideia central de que o que é destinado para cada indivíduo, não pode ser tomado por outros. No contexto do álbum ao todo, “O Que é Teu, é Teu” é uma adição ímpar ao projeto, transmitindo uma mensagem de esperança e confiança para quem a ouve.

“És Maior”, a décima faixa do álbum, é uma canção que mergulha profundamente na temática da adoração, exaltando a grandiosidade de Deus em relação à criação e à humanidade. A letra, escrita por Tony Ricardo, é rica em imagens poéticas que descrevem a magnitude e o poder divino, desde as constelações até as ondas do mar. 

A produção de Weslei Santos, embora simples, é eficaz em criar um ambiente que ressalta a mensagem espiritual da música. Os arranjos instrumentais, caracterizados por uma abordagem mais minimalista, permitem que a voz de Damares seja o foco principal, transmitindo emoção e devoção genuínas. A repetição da frase “És Maior” ao longo da música serve como um refrão poderoso que reforça a centralidade de Deus na vida do adorador.

“Pode Confiar” é um momento de destaque do álbum, que captura a energia contagiante de uma performance ao vivo. A interação entre Damares, o público e o backing vocal cria uma atmosfera de celebração, onde todos se unem para proclamar a fidelidade de Deus. A letra, habilmente composta por Junior Maciel, faz referência a figuras bíblicas como Abraão, Josué e o rei Ezequias, que depositaram sua confiança inabalável no Senhor e foram honrados por sua fé. 

A mensagem de esperança e promessa é reforçada pela melodia envolvente, simples, porém acertiva, e pela intensidade emocional da interpretação de Damares. Essa faixa, como penúltima do álbum, serve como um poderoso chamado à fé e uma lembrança reconfortante de que, mesmo nos momentos mais difíceis, podemos confiar plenamente no cuidado e na fidelidade de Deus.

Chegamos à última canção do projeto: “Teu Amigo Sou Eu”. Composta por Tony Ricardo, destaca-se pela sua mensagem reconfortante sobre a presença constante e fiel de Jesus como amigo verdadeiro, mesmo nos momentos mais difíceis da vida. A captação ao vivo da canção adiciona uma camada de autenticidade e proximidade emocional, permitindo que os ouvintes se conectem ainda mais com a mensagem. O público presente nas faixas finais do álbum, participando ativamente e até mesmo fazendo backing vocal, reforça o senso de comunidade e unidade, tornando a experiência auditiva ainda mais agradável de se ouvir. 

A letra profundamente comovente e a interpretação sincera de Damares combinam-se para criar uma música que oferece conforto e esperança aos corações dos ouvintes. A composição de Tony Ricardo também incorpora referências bíblicas, como a história de Jó, destacando a capacidade de Deus de estar presente mesmo nos momentos de maior desespero e perda. A utilização dessas referências adiciona profundidade e significado à música, tornando-a mais acessível e relevante para aqueles familiarizados com as Escrituras sagradas.

Ao avaliar as 12 faixas de “Terceiro Céu” como um todo, é possível reconhecer a diversidade de temas explorados por Damares, bem como sua abordagem mais intimista e reflexiva, que se afasta um pouco de seu ambiente pentecostal tradicional. O objetivo do projeto parece ser oferecer uma experiência musical que celebra a fé, a devoção e a esperança, enquanto busca alcançar novos públicos na era digital.

A mensagem que cantora quis transmitir é de adoração íntima e devoção espiritual, convidando os ouvintes a refletirem sobre sua relação com Deus e sua jornada de fé. Ela explora temas como a expectativa da segunda vinda de Cristo, a importância da confiança em Deus em meio às adversidades e a gratidão pelos detalhes sutis da existência.

No geral, Damares parece ter atingido parte de sua meta com o projeto. Suas letras profundas e significativas, aliadas a performances emocionais e uma produção musical satisfatória, oferecem uma experiência bacana para os ouvintes. No entanto, a abordagem menos pentecostal pode surpreender alguns fãs mais tradicionais, enquanto atrai novos públicos que apreciam uma adoração mais íntima e reflexiva.

Em suma, “Terceiro Céu” é uma obra que mostra a versatilidade e a evolução artística de Damares, oferecendo uma jornada de fé e inspiração que ressoa com uma ampla audiência, mesmo que deixe de lado seu ambiente mais pentecostal neste projeto específico.

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Gilcinei

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